• Rachel Serodio

Violência doméstica e assédio

As manifestações de desrespeito à autonomia e à vida das mulheres






A definição e manifestação da violência doméstica e do assédio são diferentes. Mas, existe um ponto comum que se encontra na raiz dessas questões: o desrespeito à autonomia dos corpos e desejos das mulheres. É sobre não entender que o corpo de nenhuma mulher é propriedade de um homem ou do Estado. E essa é uma questão de gênero.


A violência doméstica e o assédio são frutos de uma sociedade patriarcal que socializa os homens ao poder e as mulheres a subalternidade. Diante disso, a mulher acaba não decidindo seu próprio destino, não é dona do próprio corpo e está fadada a ser escolhida e abandonada. Na música ‘Samba da Benção’, de Vinícius de Morais, ele diz que a mulher tem que ter algo além da beleza, uma tristeza de se saber mulher. “Feita apenas para amar. Para sofrer pelo seu amor e pra ser só perdão”. Dúvidas se é poético, mas fatalmente problemático. Afinal de contas, a mulher é “feita para amar” o outro. Para valorizar o outro. Para acompanhar o outro. Uma sombra, uma coadjuvante, uma costela. Uma escolhida. O que sobra pra ela própria além de definir sua vida, como mulher, como ser humano, pautada na vida do outro se nem ela pode escrever sua história? Sobra a resistência.


O assédio acontece na rua, no trabalho, no transporte público, na escola. Pode ser sexual ou moral. A violência doméstica, em contrapartida, acontece no ambiente privado. Isso não quer dizer que não se manifeste em lugares públicos, tá? Mas, diz respeito a pessoas que convivem em um mesmo ambiente. Marido, esposa, namorado, namorada, pai, filhos, mãe. É sobre família. E quando o assunto é família, a situação é mais complexa. São laços de sangue, de proximidade, de intimidade. Denunciar é como colocar o poder público no meio da sala de estar. É lidar algumas vezes com conselho tutelar, com revitimizações, com definição de guarda e convivência dos filhos, com autonomia financeira, dilapidações patrimoniais, com o medo de ser afastada dos filhos e ser acusada de alienadora, com a descrença do poder judiciário. É um fardo pesado de se carregar sozinha.


Preciso pontuar que quando o sexismo e a misoginia se encontram com a LGBTfobia e com o racismo nas capilaridades do conservadorismo capitalista, a ferida é tripla ou quadrupla. Mulheres trans, negras e periféricas são as que mais sofrem, pois são atravessadas por muitos preconceitos. Essas mulheres, principalmente, precisam ecoar suas vozes. São as maiores vítimas da violência doméstica e de feminicídio. Segundo ‘Anuário Brasileiro de Segurança Pública’, entre 2017 e 2018 houve um aumento de 4% no número de feminicídios em comparação ao ano anterior. Desse total 61% dessas mulheres eram negras.


Precisamos, como sociedade, pois essa é uma responsabilidade de todos, todas e todes, garantir a autonomia de todas as mulheres. Tornar visíveis as suas lutas, suas dores, suas diferenças, suas causas, suas histórias, suas necessidades. Ver o mundo a partir das perspectivas delas e trazer seu protagonismo para a vista de todes. Não legitimar a violência, é criar e cuidar de filhos e filhas conscientes de suas potências e liberdades. Suas e das demais pessoas sem prévias determinações sociais. Parece o básico sobre respeito as diversidades. E é, também. Mas, é principalmente sobre não perpetuar a socialização herdada de um sistema que aprisionou os corpos e atribuiu um menor valor para a vida das mulheres.

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